quarta-feira, 25 de abril de 2007

"A mais bela imagem não tem forma."


Em um tempo em o homem valoriza mais a irrealidade do que a realidade, temos a proliferação da exaltação do simulacro, pois o simulacro é o real intensificado na cor, na forma, no tamanho e nas suas propriedades. As imagens dominam os conceitos e a comunicação. Hoje não conseguimos mais viver sem imagens e quando as citamos, já logo é imaginado um sentido, descrição para alguma coisa. A imagem sempre vem para dizer algo, descrever, contar, não mais para ilustar e complementar, como seria o seu real objetivo, ela virou a encarnação da realidade, materializou. Na comunicação mesmo temos exemplos de massificação de imagem em todos es veículos, sem excessão. Jornais vêm recheados de fotos, muitas vezes, em alguns jornais populares, mais imagens que textos, nada melhor do que uma foto sangrenta para descrever o horror de um crime. Como o famoso jargão diz" uma imagem vale mais do que mil palavras". Há uma aclamação pelo visível, pelo visto, uma energia impaciente habitando o olhar.
Em contrapartida, temos autores, como o citado no último post, Bavcár que faz o paradoxo dessa visão impaciente, bem como Merleau-Ponty que faz uma analogia com a percepção de imagens, o que vemos com o que é visto, essa interpretação inconsciente e automáticas das imagens. Merleau-Ponty defende o resultado da interpretação sendo subjetiva, uma ligação entre quem vê e o que é visto. Confirmando essa subjetividade do olhar, Giordano Bruno fala da imaginação, o inconsciente que e a define como "a vestimenta da alma e primeiro corpo do pensamento". "Só vejo o que sei".
Estes três autores fazem justamente um paradoxo entre o simulacro da realidade representado nas imagens e seus pensamentos e teses. São críticas válidas em um momento em que a cultuação deste simulacro cresce desacerbadamente.

terça-feira, 24 de abril de 2007

"Sem escuridão não podemos ver estrelas"




Como amante de um assunto intrigante como as mudanças ocorridas no mundo, não poderia escrever de outra coisa senão, mais uma vez desta metamorfose que estamos participando. Pesquisando e pensando sobre todas particularidades deste assunto, um artista e autor me chama a atenção (não somente me chama atenção, como também disperta em mim uma admiração constante), Evgen Bavcar, um esloveno cego, fotógrafo e filósofo. Bavcar defende um mundo de invisibilidade, que nossos olhos não podem alcançar e é justamente baseado neste paradoxo entre visibilidade e invisibilidade causado pelas mudanças da pós-modernidade. Não conseguimos mais ver, temos um olhar avulso e incerto.


"Vivemos em meio a uma cegueira generalizada"*


A correria do dia-a-dia, a mudança de foco de vida, de perspectivas e ideais fizeram com que nos esqueçamos de ver o que está mais próximo de nós e principalmente dos nossos sentimentos e sensações. Hoje há uma relação dinâmica da visão e do que é visto. Essa relação já poderia ser vista com Platão e o seu Mito da Caverna em que mostra como podemos ser enganados se não estivermos preparados para ver além da visão.


"Sem escuridão não podemos ver estrelas"*


No documentário brasileiro Janela da Alma, de João Jardim e Walter Carvalho em que Bavcar é entrevistado, ele fala exatamente sobre essa relação de visão que não é explorada pelos homens e diz que, mesmo sendo cego, vê melhor o mundo do que pessoas que não tem nenhuma deficiência física, pois ele tem um olhar interior.


"As pessoas não sabem mais ver, não vêem nada, pois não tem mais o olhar interior, não tem mais a distância"*


É uma relação de paradoxo intrigante, pois Bavcar diz exatamente o oposto da nossa realidade contemporânea, capitalista e frenética. Um autor para lermos e refletirmos sobre nosso presente.


*Evgen Bavcar

domingo, 15 de abril de 2007

" Eu só tenho duas horas para brincar!"


Lendo um texto para a faculdade, encontrei um trecho que me fez refletir um pouco mais sobre o último assunto aqui postado.

" Então lembro da Danielle, que é uma menina de dez anos , minha vizinha, com quem encontrei no elevador às dez da manhã e perguntei: 'Danielle, você não foi à aula?' E ela respondeu: 'Não, Betto, eu estudo à tarde'. Então eu disse: 'Que bom, então você pode brincar, dormir até mais tarde'. Ela respondeu: 'Não, eu tenho tanta coisa de manhã...' Eu falei: 'Que tanta coisa?' Ela disse: 'Eu tenho aula de inglês, aula de balé, aula de pintura, piscina', e começou a elencar. (...) 'Eu só tenho duas horas para brincar!' " Betto, Frei. Crise da modernidade e espiritualidade.

Não sei por que, mas esse trecho, apesar de não me causar nenhuma estranheza, pois claro, é essa a realidade de todos nós, me causou certa angústia. Não sei se é pelo fato de ser uma criança de dez anos, poxa, eu com dez anos corria pela rua com os chinelos na mão, estudava, fazia meus deveres, porém, eu brincava, para mim e creio que para todos aqui lendo estão, brincar não era segundo plano.
Mas acho que minha angústia toda veio de uma culpa e creio que todos aqui também, após identificá-la, sentirá. E essa culpa vem das inúmeras vezes que eu pensei " quando eu tiver filhos, eles vão fazer tudo, aproveitar todo o tempo disponível na infância para que quando adultos possam me agradecer de terem tido oportunidades incríveis na sua formação, intelectual, profissional, na sua formação cidadã". É um assunto sério, mas também creio que por mais que eu tente, a minha sensação é que não conseguirei salvar o mundo desta síndrome, e realmente penso como faremos no dia em que as crianças não serão mais crianças, não brincarão mais. Mas uma coisa eu ainda posso fazer:
Mãe, obrigada por me deixar brincar na rua com os chinelos na mão.

domingo, 1 de abril de 2007

"ver o mundo num grão de areia e um céu numa flor silvestre, ter o infinito na palma da mão e a eternidade numa hora" Willian Blake



Eu sempre quis que meu dia tivesse 48 horas e que minha vida durasse uma eternidade. Mais do que isso, sempre tive um desejo íntimo que minha vida não passe em vão, na verdade, algumas vezes eu me preocupava tanto em aproveitar meu tempo que me esquecia de detalhes que fazem uma vida especial. Hoje vejo que ainda sou muito jovem, e que despendi muito tempo da minha tão curta vida com coisas "importantes" e deixei de fazer coisas simples, pois achava que "gastava" o meu tempo. Nunca consigo fazer somente uma coisa por muito tempo, na faculdade mesmo, nem sei como consigo ficar tanto tempo sentada (se bem que posso até ficar sentada, mas calada... minha amiga Ana Rosa sabe bem...). Agora por exemplo, vocês não imaginam quantas vezes já me levantei, já fui à cozinha, já me pendurei ao telefone, já ouvi Lauryn, Johm Mayer, até li uma parte de um livro.... esse é meu defeito(ou qualidade), querer fazer tudo ao mesmo tempo. Não acredito que seja dificuldade de concentração, mas sim uma necessidade, uma vontade louca de aproveitar muito mais do que posso e consigo, o meu tempo.
Essa última semana, refletindo justamente sobre essa disciplina que me "obrigou" a fazer esse blog, percebi como esse nosso mundo pós-moderno, ágil e sem fronteiras pode ter criado milhares de Camilas Jardim com essa mesma síndrome de querer e ter tudo ao mesmo tempo, usar o telefone, falar pela rede com o amigo da austrália, postar em um blog, acompanhar o marido ao buteco com amigos, ler, ouvir música, visitar a mãe (que saudade da minha mãe...) e ainda descansar, pois amanha é segunda e começa tudo de novo, a rotina me deixa revoltada... como posso fazer basicamente a mesma coisa todos os dias?
Ih... minha cabeça também já está pensando em tudo e sobre tudo, bem como eu já estou querendo falar de tudo ao mesmo tempo... melhor parar... mesmo pq, acho q já estou aqui muito tempo... escrevi as últimas 11 linhas sem me levantar...
Bom... esse é meu primeito blog... não sei nem se levo jeito para isso, mas já que estou sendo obrigada a fazê-lo para uma disciplina da faculdade, vamos ver no que dá. Espero mesmo que possa ser proveitoso e que eu consiga tempo entre o trabalho, a faculdade e o marido para atualizar-lo sempre.
Que eu seja bem vinda à essa experiência.